Neurose afetiva: quando o amor deixa de ser encontro e se torna necessidade

Por que algumas pessoas conseguem perceber que uma relação lhes causa sofrimento e, ainda assim, sentem uma dificuldade quase insuportável de se afastar?
Nem sempre permanecemos em determinados vínculos porque eles nos fazem bem. Algumas vezes, permanecemos porque perder aquela relação parece significar perder algo de nós mesmos.
A pessoa reconhece as ausências. Percebe as frustrações. Sabe que está cedendo demais, esperando demais ou recebendo muito menos do que gostaria. Pode até aconselhar outra pessoa a sair de uma relação semelhante.
Mas, quando se trata da própria história, algo parece ser mais forte.
É nesse território que proponho pensar a neurose afetiva.
O termo, aqui, não é utilizado como uma categoria diagnóstica estabelecida pelos principais manuais de classificação em saúde mental. Trata-se de uma formulação clínica e psicanalítica para compreender determinadas formas de sofrimento nas quais o vínculo afetivo passa a ocupar uma função central na organização psíquica do sujeito.
Mais do que simplesmente querer alguém, existe a sensação de precisar daquele vínculo para continuar se sentindo desejado, importante, escolhido ou emocionalmente seguro.
E essa diferença muda muita coisa.
Não é simplesmente “amar demais”
Quando alguém permanece em uma relação dolorosa, é relativamente comum ouvir:
“Você precisa se valorizar.”
“É só terminar.”
“Você sabe que essa pessoa não te faz bem.”
“Você precisa aprender a ficar sozinho.”
Essas frases podem até parecer lógicas para quem observa a situação de fora. O problema é que elas tratam racionalmente um conflito que não é apenas racional.
A pessoa muitas vezes já sabe que aquela relação lhe causa sofrimento.
O que ela não consegue compreender é por que saber disso não é suficiente para conseguir sair.
Na neurose afetiva, podemos encontrar uma espécie de conflito entre aquilo que o sujeito reconhece conscientemente e aquilo que emocionalmente precisa preservar.
Assim, a questão deixa de ser:
“Por que ela não percebe que essa relação é ruim?”
e passa a ser:
“O que essa relação sustenta psiquicamente para que perdê-la seja tão ameaçador?”
Essa segunda pergunta nos leva muito mais longe.
Quando ser amado começa a significar ter valor
Nossa maneira de amar não começa na vida adulta.
Muito antes dos relacionamentos amorosos, vamos construindo nossas primeiras experiências de vínculo: somos acolhidos, frustrados, percebidos, ignorados, reconhecidos, criticados, protegidos ou abandonados emocionalmente de diferentes maneiras.
A criança não possui inicialmente os mesmos recursos psíquicos de um adulto para compreender essas experiências.
Ela não pensa necessariamente:
“Minha mãe possui limitações emocionais.”
“Meu pai não consegue demonstrar afeto.”
“Esse ambiente não consegue responder adequadamente às minhas necessidades.”
A experiência pode ser vivida de outra maneira:
“Talvez eu precise fazer alguma coisa para ser amado.”
É nesse ponto que pode começar uma aprendizagem afetiva muito dolorosa: a ideia de que o amor precisa ser conquistado.
Ser obediente.
Ser útil.
Não incomodar.
Ser perfeito.
Compreender sempre o outro.
Esperar.
Perdoar.
Aceitar.
Adaptar-se.
Pouco a pouco, a pessoa pode crescer aprendendo muito sobre como preservar vínculos e muito pouco sobre como perceber o próprio sofrimento dentro deles.
A adaptação afetiva
A contribuição de Sándor Ferenczi para a psicanálise nos permite olhar com especial atenção para a maneira como o sujeito pode se adaptar ao ambiente para preservar relações das quais emocionalmente depende.
Diante de determinadas experiências, a adaptação deixa de ser apenas uma habilidade saudável e passa a funcionar como estratégia de sobrevivência psíquica.
Em vez de perguntar:
“O que eu sinto diante disso?”
o sujeito aprende a perguntar:
“O que preciso fazer para que o outro não vá embora?”
É uma mudança aparentemente pequena, mas profundamente importante.
A própria experiência emocional começa a ocupar um lugar secundário.
A pessoa sente raiva, mas imediatamente encontra uma explicação para o comportamento do outro.
Sente-se desrespeitada, mas pensa que talvez esteja exagerando.
Sente tristeza, mas recorda tudo aquilo que o parceiro já fez de bom.
Sente abandono, mas culpa a si mesma por “estar exigindo demais”.
Assim, existe sofrimento, porém também existe uma enorme capacidade de justificá-lo.
E quanto mais o comportamento do outro é explicado, menos espaço sobra para reconhecer aquilo que aconteceu consigo.
“Eu entendo o lado dele”
Talvez essa seja uma das frases mais interessantes da clínica dos vínculos.
Compreender o outro é uma capacidade emocional importante. O problema começa quando essa compreensão acontece sistematicamente às custas da própria experiência.
“Ele estava cansado.”
“Ela teve uma infância difícil.”
“Ele não sabe demonstrar sentimentos.”
“Ela está passando por muita coisa.”
“Ele não fez por mal.”
Tudo isso pode ser verdade.
Mas existe uma pergunta que frequentemente desaparece:
E o que isso provocou em você?
Uma história dolorosa pode explicar o comportamento de alguém. Ela não transforma automaticamente esse comportamento em algo que precisamos suportar.
Na neurose afetiva, entretanto, reconhecer a própria dor pode ser perigoso.
Porque reconhecer plenamente aquilo que o outro faz pode obrigar o sujeito a reconhecer também que aquele vínculo talvez não seja aquilo que ele gostaria que fosse.
E algumas vezes é menos doloroso preservar a idealização do que enfrentar essa perda.
A repetição afetiva
Um dos fenômenos mais importantes nesse funcionamento é a repetição.
As relações mudam.
Os nomes mudam.
As histórias mudam.
Mas determinados sentimentos parecem retornar.
A pessoa novamente espera ser escolhida.
Novamente se envolve com alguém emocionalmente indisponível.
Novamente acredita que, se tiver paciência suficiente, algo finalmente acontecerá.
Novamente aceita pouco enquanto espera muito.
E novamente experimenta aquela conhecida sensação de não ser prioridade.
Do ponto de vista psicanalítico, a repetição não significa que alguém conscientemente “goste de sofrer”.
Também não significa que procure deliberadamente pessoas que irão machucá-la.
Repetimos porque determinadas experiências possuem uma familiaridade emocional.
Existe algo nelas que o psiquismo já conhece.
E, algumas vezes, pode existir ainda uma esperança inconsciente:
“Talvez desta vez termine diferente.”
É como se uma antiga história fosse colocada novamente em cena, agora com novos personagens, na esperança de receber outro final.
Desta vez serei escolhido.
Desta vez alguém ficará.
Desta vez serei suficiente.
Desta vez conseguirei finalmente receber aquilo que um dia faltou.
Por que relações instáveis podem se tornar tão intensas?
Existe um paradoxo interessante: nem sempre relações mais instáveis produzem menos investimento afetivo.
Algumas vezes acontece justamente o contrário.
Quando carinho, presença e reconhecimento são imprevisíveis, cada pequena aproximação pode adquirir enorme importância.
Uma mensagem depois de horas de silêncio.
Uma demonstração inesperada de carinho.
Uma promessa de mudança.
Um reencontro depois de um afastamento.
A angústia diminui temporariamente e essa redução pode ser experimentada como uma poderosa confirmação do vínculo.
O problema é que o alívio não necessariamente significa segurança.
Às vezes significa apenas o fim momentâneo da insegurança.
E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Por isso, algumas relações parecem extraordinariamente intensas não porque exista maior intimidade, mas porque existe maior oscilação entre presença e ausência, esperança e frustração, medo e alívio.
O sujeito pode acabar confundindo intensidade emocional com profundidade afetiva.
Neurose afetiva e dependência emocional são a mesma coisa?
Não necessariamente.
A expressão “dependência emocional” costuma descrever comportamentos como medo excessivo da separação, necessidade constante de aprovação, dificuldade de estabelecer limites e manutenção de relações prejudiciais.
São manifestações importantes.
Mas uma leitura psicanalítica procura perguntar também qual é a função daquele vínculo na história subjetiva da pessoa.
Por que ser escolhido se tornou tão importante?
O que uma separação parece confirmar sobre si mesmo?
Por que a ausência de alguém produz não somente saudade, mas uma sensação de desorganização?
Por que estabelecer um limite provoca culpa?
Por que a rejeição parece atingir não apenas aquela relação, mas o próprio sentimento de valor pessoal?
Na neurose afetiva, portanto, interessa menos criar um rótulo para o comportamento e mais compreender como o sujeito aprendeu a existir emocionalmente através do olhar do outro.
Quando perder alguém parece significar perder a si mesmo
É justamente por isso que algumas separações são tão difíceis.
A pessoa não está necessariamente tentando preservar somente um relacionamento.
Pode estar tentando preservar:
a sensação de ser desejada;
a fantasia de finalmente ser escolhida;
uma promessa de futuro;
uma confirmação de que possui valor;
ou até uma determinada versão de si mesma que só consegue reconhecer quando existe através daquele vínculo.
Por isso, dizer simplesmente “vá embora” frequentemente não alcança a dimensão do conflito.
Para conseguir se separar do outro, algumas pessoas precisam primeiro construir algo que deveria existir independentemente dele:
a possibilidade de permanecer consigo mesmas.
O problema não está em precisar de pessoas
É importante fazer outra distinção.
Saúde emocional não significa independência absoluta.
Somos seres constituídos por vínculos. Precisamos de reconhecimento, cuidado, pertencimento, intimidade e troca.
A proposta não é transformar o sujeito em alguém que “não precisa de ninguém”.
Tal ideal seria, inclusive, profundamente incompatível com aquilo que sabemos sobre a própria constituição humana.
A questão aparece quando precisar do outro começa a exigir o desaparecimento de si.
Quando manter uma relação significa silenciar constantemente aquilo que se sente.
Quando discordar produz medo de abandono.
Quando colocar limites provoca culpa.
Quando receber migalhas parece preferível a enfrentar a ausência.
Quando ser escolhido pelo outro se torna mais importante do que conseguir escolher a si mesmo.
O que acontece na psicoterapia?
A psicoterapia não deveria simplesmente ensinar alguém a terminar relações.
Também não deveria ocupar o lugar de decidir quais pessoas devem permanecer ou desaparecer da vida do paciente.
O trabalho é mais profundo.
É construir condições para que o sujeito consiga reconhecer sua própria experiência.
Nomear sentimentos que durante muito tempo precisaram ser silenciados.
Perceber repetições.
Questionar idealizações.
Reconhecer a própria raiva sem transformá-la imediatamente em culpa.
Diferenciar compreender o outro de abandonar a si mesmo.
E, principalmente, construir gradativamente uma sensação de legitimidade subjetiva:
“Aquilo que eu sinto também importa.”
Em uma perspectiva ferencziana, a própria relação terapêutica ganha importância particular. Para alguém que aprendeu que precisava adaptar seus sentimentos para preservar vínculos, encontrar uma relação na qual sua experiência pode existir sem ser ridicularizada, desmentida ou imediatamente corrigida pode constituir algo profundamente transformador.
Não porque o terapeuta irá oferecer todas as respostas.
Mas porque, talvez pela primeira vez, determinadas perguntas possam existir.
Amar sem desaparecer
Superar esse funcionamento não significa deixar de amar intensamente.
Talvez signifique justamente aprender uma forma diferente de amar.
Uma relação na qual o vínculo não precise ser constantemente conquistado.
Na qual discordar não signifique necessariamente perder.
Na qual colocar um limite não seja vivido como abandono.
Na qual a ausência temporária do outro não destrua a própria sensação de existência.
E na qual permanecer seja uma escolha — e não uma necessidade para conseguir sentir que possui valor.
Talvez uma das transformações mais importantes do processo terapêutico aconteça quando a pergunta deixa de ser:
“O que preciso fazer para que essa pessoa me escolha?”
e lentamente se transforma em:
“O que acontece comigo quando sou eu quem precisa escolher?”
Porque o amor pode ser vínculo, cuidado, desejo, companhia e construção compartilhada.
Mas quando amar exige que o sujeito desapareça para garantir a permanência do outro, talvez já não estejamos falando apenas sobre amor.
Talvez estejamos diante de uma história muito mais antiga tentando, mais uma vez, encontrar um final diferente.

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